Sobrevivente de tentativa de feminícidio, Cristina Lopes hoje atua em prol de queimados e de mulheres

- 04/06/2025

O ano era 1986. Cristina Lopes Afonso tinha 20 anos de idade, era recém-formada em Educação Física e planejava fazer uma pós-graduação na Alemanha. Ela conversava com o namorado num cômodo da casa onde morava com o irmão e uma amiga. Tudo parecia bem até que ele abriu um armário, pegou um álcool, jogou no chão e começou a dizer que não confiava nela e a questionar coisas banais como o porquê de ela usar brincos. 

Ela tentou abrir a porta. Estava trancada. Ao namorado, pediu calma, enquanto ele riscava e apagava palitos de fósforo. Um deles pegou fogo!

Depois disso veio um grito que levou o irmão a arrombar a porta do cômodo. O namorado saiu. O irmão de Cristina, com apenas 15 anos, soube como salvar a irmã. “Ele pegou um cobertor e abafou o fogo. Depois me levou para o chuveiro. Está aí a importância da prevenção. Havíamos aprendido isso na escola”, relembra. O medo a fez cobrir os olhos, o que a deixou com os braços travados na posição. Ela apenas pediu: me leve para o hospital. 

Cristina teve 85% do corpo queimado. No hospital em Curitiba, onde morava para fazer faculdade, os médicos informaram à família que ela não iria sobreviver. Um profissional sugeriu levá-la para Goiânia. Chegando lá, o diagnóstico era semelhante, mas um fio de esperança se acendeu: era possível fazer um curativo de pele humana que deveria ser retirada de outra pessoa viva e, ainda assim, as chances de morte eram altas. 

Mas dois irmãos aceitaram doar pele. Com isso, eram três irmãos acamados e precisando de cuidados e curativos. O pai vendeu uma fazenda no Paraná, cidade Natal de Cristina, para bancar o melhor tratamento. E foi esse apoio incondicional da família que a fez sobreviver e atravessar tudo que viria depois. 

Sofrimento e renascimento

“O tratamento foi extremamente sofrido. Uma época em que a vítima de queimaduras não era assistida por equipe multidisciplinar, a analgesia era insuficiente. As dores enlouqueciam ao ponto de rogar pela morte”, destaca.

Foram 24 cirurgias plásticas, adaptação da malha compressiva, dois anos de terapia e ter de reviver tudo ao passar pelo julgamento do acusado de ter deixado ela assim. 

“No hospital, eu só pensava em cura, em poder andar de bicicleta, correr, ir a shows, espetáculos, viver! A adaptação ao uso da malha compressiva me custou muito choro desesperado. Depois, o foco foi a condenação do agressor e construir uma nova carreira”, conta Cristina. 

Em 1987, ela foi aprovada no vestibular para cursar Fisioterapia pela PUC do Paraná - na época um curso muito concorrido. “A fisioterapia foi minha escolha ainda durante o tratamento. Foi um chamado em um campo tão carente e de tanta dor. Eu sabia que podia estudar, me preparar e ajudar muita gente nessa travessia pelo trauma por queimaduras”, conta.

Nesta época, ela ainda agurdava por justiça. O agressor se apresentou à polícia, confessou o crime, mas escapou do flagrante e seguiu a vida por muito tempo em Campo Grande (MS). A condenação definitiva só foi anunciada 33 anos depois da tentativa de feminício, em 2019, com uma pena-base de 21 anos, atenuada para 13 anos e 10 meses em regime fechado. A pena foi considerada um marco na luta da violência contra as mulheres. Este foi o primeiro caso de tentativa de homicídio com vítima viva julgado em tribunal do júri. 

Perdão

"O perdão foi a minha libertação", diz Cristina, ressaltando que foi preciso, inclusive, perdoar a si mesma. E o que ela fez com a dor? Ressignificou! E usa seu caminho, sua vivência, para ajudar outras tantas vítimas, seja de queimaduras, seja de violências. 

“Quando um crime como esse nos bate à porta, precisamos gritar com todas as forças e de todas as formas. O direito à vida é inviolável”, destaca. Hoje, Cristina é secretária de Projetos Especiais na Assembleia Legislativa de Goiás, vinculada à Procuradoria Especial da Mulher. “Sei na pele o que é transformar dor em propósito, transformar silêncio em denúncia e violência em política pública eficaz”, frisa. 


Desde 1991, Cristina se dedica a treinar equipes na prevenção e tratamento de queimados, atuando como professora e profissional da área. Ela foi chefe do Serviço de Saúde Referência em Queimadura em Goiás por mais de 20 anos. É uma das fundadoras do Núcleo de Proteção aos Queimados, da Liga Acadêmica de Queimaduras em Goiânia e foi a sócia número 1 de fisioterapia da SBQ. 

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