- 24/03/2026
Aos quatro anos de idade, Jenifer Pereira Garcia, hoje com 31 anos, se viu em chamas. Inocente, tentou eliminar um fio da blusa de nylon que vestia usando o fogo que saía do palito de fósforo que encontrou em cima da geladeira e riscou. Quando a mãe se deu conta, a menina já estava embaixo do chuveiro tentando apagar as chamas. Mas a queimadura já estava ali.
“Queimei metade do meu lado direito, da cintura para cima, tudo queimadura de terceiro grau. Lembro da ambulância, dos médicos apavorados em cima de mim, da minha mãe chorando com a mão enfaixada na minha frente, pois ela tentou apagar as chamas com as mãos e também se queimou”, conta Jenifer.
Moradora de Londrina, na época não tinha atendimento especializado e precisou ser transferida para Curitiba. “Lembro que na época precisava pagar pela ambulância para fazer a transferência e a gente não tinha dinheiro. A dona do sítio em que a gente morava ajudou, juntou com outras pessoas e me levaram às pressas. Eu quase morri”, relembra.
Jenifer conta que teve várias complicações, rejeição aos enxertos, parou de falar e de andar. Passou por várias cirurgias, usou malha extensora e fez fisioterapia. A última cirurgia ela fez aos 10 anos de idade.
“Mas me lembro de aprontar e fazer bagunça nos hospitais também”, conta, aos risos. Isso não significa que não tenha sofrido preconceitos durante a infância, adolescência, na escola e ao procurar emprego. “Mas sempre me mantive firme, fazendo o meu melhor”, frisa.
E a firmeza na vontade de viver tem dado certo. “Em 2013 eu me casei com um homem que não viu defeito em mim e, em 2015, tivemos nossa filha e, também, arrumei um emprego em um restaurante”, conta. Depois de um tempo sentindo dores no corpo, porém, descobriu uma fibromialgia que a fez parar de trabalhar.
Com isso, começou a fazer tratamento para dor e depressão. “Mas acho que pelo fato de que eu sempre fui muito extrovertida, sinto que as coisas ficam um pouco mais leves. Mesmo com as limitações causadas pela retração das queimaduras e pelas dores da fibromialgia e de uma escoliose, tento viver bem, pensando que Deus me deu uma nova chance de viver”, destaca.
E para as famílias ela deixa um recado: “com criança, todo cuidado ainda é pouco e mesmo que o cuidado pareça uma preocupação boba, considere haver perigo”, finaliza.