- 10/08/2026
Para a médica Janine Rodrigues, o Dia dos Pais teve gostinho de saudade. Há pouco mais de um ano ela o perdeu em um acidente que também a fez se tornar uma vítima de queimaduras. “Mais do que nunca, ele foi meu herói. Acredito que, de alguma forma, ele me protegeu e eu consegui sobreviver a tudo aquilo. Eu não pude despedir dele, não pude ir a velório, ao enterro, eu tinha que sobreviver por ele também”, relembra.
O acidente com os dois ocorreu em abril de 2025. Eles estavam em uma motocicleta quando foram atingidos por um cabo de rede elétrica de alta voltagem que se rompeu em uma via pública rural. Janine teve 25% do corpo queimado, atingindo região do quadril à esquerda, dorso, braço esquerdo e mão direita.
“Meu marido, minha irmã, meu primo e minha mãe foram os primeiros a chegarem na cena. Meu marido e meu primo me levaram de carro ao posto de saúde da cidade de pouco mais de 1500 habitantes. Eu, como médica, ajudei nos primeiros atendimentos com orientações de acesso, soro, morfina para dor, controle da fibrilação atrial até ser transferida para o pronto socorro de Itabira (MG) e, posteriormente, para o Hospital João XXIII”, conta.
Janine ficou 53 dias internada, passou por sete procedimentos em bloco cirúrgico com anestesia geral, desbridamentos, curativos a vácuo, enxertos, retalhos. “Ainda preciso fazer reparo no quadril por perda de enxerto. Fiz uso de placas de hidrocoloide e muito laser de CO2. Malha de compressão. Muita fisioterapia. Uso de ultrassom e massagem para liberação das aderências”, complementa.
Para ela, porém, nada disso foi mais dolorido do que a perda do pai. “Ele foi muito importante para mim, meu maior incentivo, meu ídolo, meu herói”, diz. Ficar longe do filho, à época com 6 anos de idade, também foi doloroso, segundo ela. “Mesmo pequeno, já me mostrou o quanto era forte e resiliente”, elogia.
As mudanças que vieram com o acidente também tornaram as coisas mais difíceis. “A perda da autonomia, a dor, o medo do desconhecido. Eu busquei ajuda na fé para suportar. Olhar para trás é um misto de dor e esperança que a fé sustentou”, emociona-se.
Lidar com o afastamento do trabalho e dos projetos que ela tinha foi outro desafio. “Sempre fui muito intensa. Nem tudo eu consegui voltar a fazer, por dor, por fadiga, por receio”, lamenta.
O acidente trouxe perdas, dores e uma renovação. “A Janine de antes queria estar em todos os lugares que ela pudesse. Hoje ela quer estar onde realmente se sente confortável, bem e insubstituível. Com uma base sólida da família e de amigos, ela segue em frente”, comenta.
Como médica paliativista, ela sempre cuidou da dor das pessoas, com o sofrimento, com a vida e a morte. “Eu senti tudo que os meus pacientes sentiam. Eu pensava neles dia e noite. Certamente, esse será meu grande ensinamento de profundo experimento de emoções de vida e morte”, ressalta.
Da internação, também tirou aprendizados. “Percebi como há muitas dúvidas no tratamento ambulatorial no processo de reabilitação e cuidados. Como estar num centro de referência me ajudou muito. Por isso, quero contribuir com outros pacientes e profissionais”, comenta.
Janine foi convidada pela SBQ para relatar a sua experiência durante o XVI Congresso Brasileiro de Queimaduras, em junho deste ano. “Foi uma oportunidade de valorizar a equipe que cuidou de mim e ajudar outros pacientes e profissionais no cuidado desses pacientes”, diz.
Para quem, assim como ela, é uma vítima de queimaduras, ela deixa como conselho o mantra que tem com o marido: “mais um dia, menos um dia". E destaca que a prevenção é o melhor caminho para evitar a dor.