- 30/06/2026
Faltou equipamento de proteção
individual, protocolo de segurança e treinamento. O resultado de tantas ausências foi um
acidente de trabalho que deixou marcas no corpo e na mente de Wellington Santos.
Em setembro de 2023, quando era garçom, ao reabastecer um réchaud com álcool em
gel, ele foi vítima de uma explosão que deixou 36% do seu corpo queimado,
atingindo tórax, abdômen, costelas, braço direito e as duas coxas.
“No momento da explosão, eu me recordo
de uma cliente gritando ao me ver correndo com o corpo em chamas. Um dos funcionários
jogou uma bacia de água em mim e retiraram a minha roupa para aguardar a
chegada do Samu”, conta, relembrando a dor intensa que sentia.
Desde então, o percurso para o
tratamento das queimaduras tem sido longo, doloroso, mas cheio de coragem e
esperança.
Wellington já passou por algumas
cirurgias e deverá passar por outras em breve. Os cuidados com as cicatrizes
também são diários, com curativos, uso de pomadas e de malha compressiva. “E
desde a alta hospitalar, faço o uso de blusas contra raios UV e não tomo sol”,
conta ele que sempre adorou o sol.
Dificuldades
O ex-garçom ainda aguarda alguns
tratamentos pelo Sistema Único de Saúde para melhorar o movimento do braço
direito e o processo de regeneração da pele.
“Uma das maiores dificuldades que
enfrentei e ainda enfrento é o acesso a um tratamento digno pelo SUS para
pessoas queimadas. Mesmo com a gravidade do meu acidente, ainda não fiz cirurgia
para reverter ou amenizar as sequelas das queimaduras. O acompanhamento
psicológico/emocional se mostrou frágil e escasso também. As pessoas queimadas
são dignas de um tratamento integral e multidisciplinar.”, lamenta.
Ele diz ter contado com acompanhamento psicológico
apenas nos seis primeiros meses após o acidente, quando também fez sessões de
fisioterapia corporal e respiratória.
Wellington ainda enfrenta restrições e sente
vergonha de mostrar o corpo onde as queimaduras estão presentes. “Depois do meu
acidente, as rotinas pessoais e profissionais nunca mais foram as mesmas. Em
decorrência da retração das cicatrizes e falta de elasticidade da pele, não
consigo realizar determinados movimentos”, lamenta. Segundo ele, isso o impede
de exercer certas profissões.
“A minha mensagem para os empregadores é
para que valorizem a vida e saúde do trabalhador, que implementem protocolos de
segurança, mapas de risco, procedimentos operacionais padrões, forneçam EPIs,
fiscalizem a utilização de EPIs, conscientizem/eduquem todos os trabalhadores
sobre o tema e sigam todas as normas de segurança possíveis. A cautela é necessária!”,
frisa.
Renascer
Solteiro e sem filhos, ele que adorava
cuidar do corpo e da saúde e de se relacionar com as pessoas, hoje ele sente dificuldade
de se expor e iniciar relacionamentos. “Não me sinto confortável pela estética
das cicatrizes. Sinto uma extrema vergonha! Não tiro a blusa ou qualquer peça
que mostre as sequelas físicas quando estou em ambientes coletivos e sociais”,
diz
Apesar de todas essas dificuldades, ele
diz que renasceu e renasce todos os dias. “A minha pele é o meu templo, a minha
história, a minha origem, a minha orientação, o meu destino e o meu bem viver”,
diz, citando uma frase da música "Paciência", de Lenine: “a vida
exige um pouco mais de calma e um pouco mais de alma. Exige paciência! A vida é
tão rara!”, finaliza.