Revista Emergência destaca a assistência aos queimados em reportagem de capa

Publicado em 25 de junho de 2013

A Revista Emergência de Junho de 2013 aborda, em sua reportagem de capa, o atual panorama da assistência às vítimas de queimaduras no Brasil.

MATÉRIA DE CAPA
CICATRIZES PERMANENTES

REPORTAGEM DE RAFAEL GEYGER / REVISTA EMERGÊNCIA
CAPA: BETO SOARES/ESTÚDIO BOOM

Queimaduras provocam dor física e psicológica, com consequências que se estendem ao longo da vida das vítimas

Em 2012, o Brasil registrou 2.291 óbitos e 107.746 in­ter­nações por queimaduras, considerando a exposição à corrente elétrica, radiação e temperatura, à fumaça, fogo e cha­mas e o contato com fontes de calor e substâncias quentes, re­ve­lam dados do DATASUS (Sistema de Informações Hospitala­res do Ministério da Saúde). Apesar de expressivo, o número ainda está distante da realidade, apontam especialistas ouvidos porEmergência, que acreditam em subnotificação de casos. Queimadu­ras químicas, por exemplo, estimadas em 4% do total de ocorrências, não possuem estatísticas no DATASUS. Embora não traga dados definitivos sobre a incidência de queimaduras no Brasil, o banco de dados possibilita indicar este tipo de incidente como um problema de Saúde Pública no país. Nos últimos cinco anos, as internações pela causa cresceram 79,5%. O maior salto ocorreu entre 2008 e 2009, quando passou de 60.025 para 80.607 casos anuais registrados no DATASUS. Os óbitos, por sua vez, interromperam em 2012 a curva ascendente dos últimos cinco anos e so­maram 3,09% menos mortes. Ainda assim, o acréscimo no refe­rido período é de 101%.

Segundo Pablo Pase, cirurgião plástico da UTQ (Unidade de Tratamento de Queimados) do HPS (Hospital de Pronto-Socorro) de Porto Alegre/RS, estima-se que cerca de um milhão de pes­soas sofram queimaduras anualmente no Brasil. A grande maio­ria é classificada como pequeno e médio queimado, mas caracterís­ticas como a faixa etária pediátrica ou acometimento de mãos são prevalentes. “O impacto no sistema se torna importante e amplo, pois engloba desde a retirada temporária de um menor da escola até a transformação de um profissional ativo em um encargo para o sistema previdenciário”, considera. Tal prevalência é percebida em diferentes partes do Brasil. Em Belo Horizonte/MG, na UTQ do Hospital João XXIII, a maior em hospital público da América La­tina, 51% de todos os casos são acidentes domésticos evitáveis e, aproximadamente, 80% deles acontecem na cozinha, revela o ci­rurgião plástico Carlos Eduardo Guimarães Leão, chefe do Servi­ço de Cirurgia Plástica e Queimados da Rede FHEMIG (Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais) e membro titular das sociedades brasileiras de Cirurgia Plástica (SBCP) e de Queimaduras (SBQ), da qual é também fundador. Conforme Leão, 43% destes acidentes são representados por crianças de zero a dez anos de idade, numa faixa social muito pouco favorecida.

O cirurgião plástico Flavio Nadruz Novaes, coordenador da UTQ da Santa Casa de Limeira/SP e ex-presidente da SBQ, enten­de que o custo da queimadura é um dos mais elevados dentro do trau­ma, pois não termina na solução da ferida. Como exemplo, ele cita sobreviventes da tragédia de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, que ­permanecem internados há quatro meses e cujo tratamento não se conclui na al­ta hospitalar. Cirurgias de cicatrização e redução da capacidade la­boral estão entre as condições pós-quei­maduras que o levam a de­fender com veemência a prevenção das ocorrências. “Nosso país tem que investir fortemente na prevenção para diminuir forte­mente, lá na frente, o tratamento das sequelas”, diz. Novaes salienta que o Brasil possui uma data ­oficial, o Dia Nacional de Luta con­tra Queimaduras, lembrado anualmente em 6 de junho e que, cada vez mais, a sociedade tem promo­vido eventos para destacar a necessidade da prevenção. No ­entanto, sente a carência de uma cam­panha elaborada e estruturada no âmbito público e não apenas por instituições privadas. Em comparativo, lembra do trabalho permanente feito em torno da AIDS, com mensagens insistentes sobre os riscos da doença e de como preveni-la. Novaes acredita que, quando um movimento semelhante for adotado quanto às queimaduras, a sua incidência será reduzida.

Para Carlos Leão, o problema da queimadura, além de social, está ligado à falta de cultura do perigo que caracteriza o brasileiro. “Não sabemos o que é, como conviver e muito menos como evitar o pe­rigo que nos ronda diariamente, mesmo em nossas casas”, alega. Ele ­acredita que, mais do que campanhas de prevenção, a solução definitiva está na introdu­ção de uma nova cultura, ­acrescentando à grade curricular do Ensino Fundamental a disciplina de “Prevenção de Aciden­tes”. “Ensinaremos aos nossos brasileiri­nhos, desde tenra idade, o que é o ­perigo, como evitá-lo e, sobretudo, como convi­ver com ele. Além de aprender, servirão como vetores, levando os novos conhecimentos aos seus adultos que, como nós, não fomos preparados para tal”, con­sidera. Ao tomar como exemplo a tra­gédia de Santa Maria, Leão diz que a disciplina propos­ta ensinaria o cidadão a certificar-se das saídas de emergência como a primeira ação toda vez que ingressar em um ambiente fechado para um evento.

ÁLCOOL

A SBQ considera o álcool líquido co­mo um dos principais causadores de quei­maduras no país. Há 11 anos, a proibição da fabricação, distribuição e comércio do produto é alvo de uma dispu­ta judicial que envolve a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e produtores. Em 2002, resolução do órgão impôs a restrição, mas sua vigência foi suspensa judicialmente poucos meses depois.

No mais recente capítulo do processo, a Anvisa obteve vitória legal e determinou, em janeiro de 2013, a proibição e o recolhimento dos produtos remanes­centes no mercado. A Associação Brasi­leira dos Produtores e Envasadores de Ál­cool contesta a decisão. Segundo Car­los Leão, há quatro anos, o álcool é o maior agente de queimaduras nas esta­tís­ticas de Minas Gerais, mesmo com todas as campanhas contra seu uso domés­tico. Desta forma, ele crê que a ­proibição não é uma medida definitiva, mas paliati­va. “O álcool gel, o substituto ­proposto, quei­ma menos, mas queima”, alerta. Mais uma vez, o cirurgião plástico enten­de que a mudança passa pela educação e defende que produtores de álcool deveriam participar financeiramente de pro­je­tos públicos de educação para colo­car a disciplina “Prevenção de Acidentes” na pauta do Congresso Nacional. Flá­vio Novaes tem entendimento semelhante. “Não basta proibir a venda de um produto”, afirma. “Ter as restrições não impede a ocorrência. Sempre há um a­gente inflamável ao alcance. Então, o que precisamos é educar a nossa popula­ção”, completa. Para ele, há carência de instrumentos legais. A Lei Federal nº 12.026, de 9 de setembro de 2009, institui o Dia Nacional de Luta contra Queimaduras, mas o texto é limitado: apenas autoriza o Ministério da Saúde a estabelecer a Semana Nacional de Prevenção e Combate a Queimaduras. Historicamente, a SBQ tem aproveitado a data pa­ra promover ações de conscientização em cidades brasileiras, como mobilizações em vias públicas, fóruns online e lan­ça­mento de publicações voltadas ao te­ma.

Assistência eficaz

Recuperação da vítima de queimadura e sua reinserção social dependem de um atendimento integral

Na ocorrência da queimadura, o atendimento rápido e qualificado é fundamental não apenas para salvar vidas, mas para garantir a recuperação da vítima e sua reinserção no mercado de trabalho e vida social. Conforme o cirurgião plástico Carlos Alberto Yoshi­mu­ra, diretor do SAMU Cu­batão/SP, titular da SBCP e professor universitário, quando a assistência não é rea­lizada a contento, o que ocorre em muitos casos, as ví­timas evoluem com graves se­quelas que persistem por anos. Consequen­temente, elas passam a integrar uma população alijada e desempregada ou dependente do sistema de aposentadorias por invalidez, onerando ainda mais os ­co­fres públicos. Outras conse­quên­cias estão relacionadas ao impacto psicológico, como a depressão e a psicose reacional pós-trauma. Por estas razões, Yoshimura espera a­ções engajadoras para discussão de atualizações nos protocolos de atendimento aos queimados, bem co­mo um maior incentivo pa­ra a aquisição de tecno­lo­gias que qualificariam a assistência mé­dica. Ao analisar o cenário brasileiro de atenção às queimaduras, ele afirma que a evolução é lenta, aquém das ­demandas e dependente de uma maior integração entre as partes envolvidas.


Comente no Facebook

comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>